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Há 10 anos, Record fracassava com “Alta Estação”, uma tentativa de copiar “Malhação”; relembre

Os seis protagonistas de “Alta Estação”; trama começou promissora e terminou desfigurada

Quem acompanha as notícias da TV há tempos certamente se lembra do pretensioso slogan “a caminho da liderança” adotado pela Record em meados da década passada, em meio a uma processo de reestruturação de grade, aquisição de formatos e eventos e investimento em elenco, com importantes nomes “tomados” da concorrente Globo, na qual se espelhava e a qual prometia incomodar.

O planejamento era ousado: bater a rival, copiando seu modelo de programação. Inclui-se aí a grade noturna: novela – telejornal local – novela – telejornal nacional – novela. Parecia improvável, mas o canal de Edir Macedo cumpriu seu objetivo. Em termos.

Em 1º de julho de 2007, há exatos 10 anos, a Record colocava um ponto final em “Alta Estação”, sua primeira e única novela das 18h. Fez-se o terceiro horário, mas não o êxito. Abortou-se o plano de competir de igual para igual com a Globo; o tempo mostrou que, nas intenções dos executivos da emissora, havia mais pretensão do que persistência no trabalho e paciência para esperar resultados. Assim, “Alta Estação” acabou voando solitária… Telespectador assíduo (praticamente) do folhetim – especialmente em sua “primeira fase” –, resgato abaixo os bastidores desta produção que nasceu promissora e naufragou em razão do imediatismo do canal.

A novela veio do desejo da casa de ter a sua “Malhação”; na época, o folheteen da Globo ostentava respeitáveis 28 pontos às 17h30, faturava como uma novela das 20h e servia as produções da faixa mais nobre com jovens talentos – casos, por exemplo, de Fernanda Vasconcellos e Thiago Rodrigues. À frente do roteiro, Margareth Boury, colaboradora de Carlos Lombardi em tramas como “Uga-Uga” (2000) e uma das responsáveis pela série “A Diarista” (2004). A aposta era tão alta que um novo estúdio foi construído, no recém-adquirido RecNov, especialmente para a produção; nos cenários, destaque para o Jony’s Bar, equivalente ao Giga Byte da concorrência.

Investia-se R$ 75 mil por capítulo, cada um com cerca de 35 cenas, em muitas externas no Rio de Janeiro (da Gávea ao Jardim Botânico) e num campus alugado de uma universidade. O ritmo prometia ser alucinante; o visual, incrível. A autora afirmava se tratar não de uma novela comum, mas de um seriado: “Por isso não há uma história definida até o final. Vamos escrevendo. […] Será um tripé de comédia, drama e romance, sem mocinhos e vilões. Os protagonistas são pré-adultos, têm responsabilidades e precisam escolher suas carreiras”. O diretor, João Camargo, declarou se inspirar em “The OC” (2003); Boury falava em “Friends” (1994).

O ponto de partida, contudo, remetia a outro trabalho: “Felicity” (1998). Tal e qual a protagonista da série, Bárbara (Ariela Massoti) mudava os planos traçados por seus pais, Olavo (Roberto Pirillo) e Bianca (Eliete Cigarini), e seguia para o Rio de Janeiro, interessada em ingressar na mesma faculdade que seu crush, Eduardo (Daniel Aguiar). Passava a dividir um apartamento com a compulsiva Renata (Andréia Horta) e a desligada Flávia (Lana Rhodes); mantinha contato com os amigos de Eduardo, Ricardo (Vergniaud Mendes), que se apaixonava por ela, e Caio (Guilherme Boury). Para aquecer o horário, a Record apostou em “Dawson’s Creek” (1998), hit adolescente da virada do século.

Soou o alerta: a temática jovem afugentou o público do horário. Estrelada por James Van Der Beek e Katie Holmes, “Dawson’s Creek” foi logo suspensa. E a grade vespertina da Record acabou também indo buscar inspiração na Globo – a reprise da novela “Louca Paixão” (1999), seguida por um filme; o famigerado “A Era do Gelo” antecedeu a estreia de “Alta Estação”. O “seriado” de Boury fugiu da concorrência: com estreia agendada para 16 de outubro de 2006, acabou indo ao ar só no dia seguinte, às 18h – enfrentando o segundo capítulo de “O Profeta”, correndo de uma disputa direta com “Malhação”. Não fez feio: 8 pontos na estreia.

Caiu no segundo dia. E foi caindo… Infelizmente. Tentou bater em “O Profeta”, acabou apanhando do “Chaves”. Imediatista como sempre, a Record atacou com mudança de horário. No segundo mês, a novela/seriado que estreou às 18h já era exibida às 19h, depois de pouco tempo às 18h30. A audiência reagiu contra “A Feia Mais Bela”, tornou a cair em seguida. Para não prejudicar o horário nobre, a emissora alocou seu curinga “Pica-Pau” entre “Alta Estação” e o jornal local. O desenho dobrava os números alcançados pelo folhetim. Teve início então a “operação-salvamento”, baseada nos conselhos de Tiago Santiago, então “todo-poderoso” da teledramaturgia do canal.

A princípio divertida e inteligente, “Alta Estação” se transformou num pastiche policial, ganhando perseguições e tiroteios, além de um deslocado núcleo infantil. Era a cartilha do supervisor, que já havia comprometido o bom andamento de “Bicho do Mato”, em cartaz às 19h; apenas “Cidadão Brasileiro”, às 20h/22h, passou ilesa ao crivo de Tiago naquele ano. Margareth, mesmo com a habilidade adquirida em tramas do tipo, nos tempos de colaboradora na Globo, não conseguiu fomentar uma história crível de suspense e violência, como vinha fazendo, com muita competência, com seu tratado sobre amizade e romance.

Entre mortos e feridos, salvou-se o casal Renata e Caio. Andréia Horta nasceu talentosa; fez de sua personagem a protagonista absoluta de “Alta Estação”, num tempo em que Bárbara se viu perdida com o pai convertido em bandido, enquanto Flávia só fez “avulsar” durante toda a narrativa. A ótima dobradinha com Guilherme Boury garante ao casal, seguramente, o primeiro lugar entre os de maior química das novelas da Record. Positivo também o namoro de Bárbara com Eduardo, que rendeu momentos hilários – como quando são flagrados tentando perder a virgindade em frente ao Jony’s Bar.

Nisso, a Classificação Indicativa também jogou contra. Não era possível se aprofundar em temas como o alcoolismo, com jovens impossibilitados de beber – qualquer bebericada poderia implicar numa reclassificação (e em mais uma mudança de horário). Não havia mudou a ser feito: o seriado que nasceu para ficar no ar por anos não passou da primeira temporada. Foi substituído por “Zorro”, produção importada, contrariando as palavras ditas por Walter Zagari, então superintendente comercial da Record, na coletiva de lançamento: “Damos valor ao talento brasileiro. Não teremos jamais novela mexicana”. Mexicana, de fato, não rolou. Colombiana sim.

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